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HIDRELÉTRICA DO RIO COTINGO, UMA ANÁLISE DAS INTERVENÇÕES ESTATAIS PDF Imprimir
03/02/2010


Luis Cláudio de Jesus Silva*


O ensaio a seguir é resumo de um dos capítulos da dissertação intitulada “Análise dos potenciais de desenvolvimento sustentável gerados pela construção de hidrelétrica no rio Cotingo às comunidades indígenas da área Raposa Serra do Sol em Roraima”.

Desde o início da década de 70, os agentes públicos discutem a necessidade de buscar soluções para os problemas energéticos na Região Amazônica. Uma das propostas estudadas foi o aproveitamento dos recursos hídricos do rio Cotingo, em Roraima. Nestes mais de 30 anos, governos se sucederam e muito se tem falado mais, infelizmente, nada saiu do papel.

No final do ano de 2006, novas ações foram implementadas culminando com a aprovação pelo Senado Federal do Decreto Legislativo nº. 434, autorizando o aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, situados na Cachoeira do Tamanduá, na região do rio Cotingo e entre as últimas ações governamentais, merece destaque o posicionamento do então governador do Roraima, Ottomar Pinto que, ao divulgar o Plano Especial de Investimento (01/01/04) enumerou como um dos pontos a “Construção da Hidrelétrica do Cotingo...”.

Como se vê, perseguir soluções para o problema energético em Roraima é de fundamental importância, neste ponto não há divergências. No entanto, muito se tem falado e pouco tem sido feito para efetivar as soluções apresentadas.


ASPECTOS HISTÓRICOS

O Cotingo sofreu o primeiro levantamento para desenvolvimento de hidrelétricas em 1971, quando a Eletrobrás empreendeu um inventário dos sítios hidrelétricos potenciais em toda a região amazônica. Este inventário foi revisado em 1980, a pedido do governo do então Território Federal de Roraima.

Os estudos indicavam que a hidrelétrica forneceria energia para os municípios de Boa Vista, Alto Alegre, Mucajaí, Caracaraí, Bonfim e Normandia. Mesmo assim, o debate em torno do tema esfriou. As exceções foram pronunciamentos e proposituras de projetos de lei por iniciativa de uns poucos parlamentares na Câmara dos Deputados. Nada que espelhasse uma meta prioritária do governo local, o qual tinha o foco desviado para outras aventuras mais urgentes e politicamente mais rentáveis.

O Plano Decenal da Eletrobrás (1993-2002) fez de Cotingo uma prioridade, com a primeira fase programada para ser completada em 1999. Cotingo teria uma capacidade instalada de 68 MW em sua fase inicial e 136 MW em uma segunda fase.

O projeto de transformar Cotingo em um fato consumado acelerou rapidamente em outubro de 94, coincidentemente entre os dois turnos das eleições. Uma audiência pública foi realizada para debater o EIA e o RIMA em 07/10/94 e a licença prévia foi concedida pela SEMAIJUS em 18/10/94. No entanto, os frágeis fundamentos destas ações pelo governo de Roraima foram apontados pela Eletrobrás que resolveu (Res. n. 602/94) que o documento de analise do estudo de viabilidade da Hidrelétrica de Cotingo "... ainda não esta em condição que permita a emissão de um julgamento favorável no que diz respeito à sua viabilidade, aos aspectos sócio-ambientais ou mesmo aos aspectos econômicos”.

A urgência dos atos que culminaram nas falhas apontadas pela Eletrobrás, os agentes públicos esqueceram, entre outros detalhes, que os índios Macuxi possuem uma tradicional maloca (Caraparu II) na região a ser inundada. E, com a aproximação da construção da barragem, o grupo construiu na área do represamento uma maloca adicional (Tamanduá).

Em reportagem do jornal Folha de Boa Vista – FBV (08/02/96) consta que o então governador Neudo Campos mandou a Polícia Militar para o local e expulsou os índios. Em sinal de protesto, os índios passaram a invadir fazendas, destruir cercas, roubar gado, incendiar pontes e derrubar torres de comunicação isolando toda a região.

Em 17/03/95, o Juiz Federal Marcos Sousa emitiu decisão ordenando que todo trabalho, exceto o de “pesquisa”, deveria ser paralisado e, proibindo o governo de enviar a PM para a área de conflito.

As intervenções estatais deixavam no ar forte tendência eleitoral e, as intenções tornaram-se objeto de desconfiança e pensamentos conspiratórios não tardaram a aparecer. Para Fearnside e Barbosa (2002), uma análise de Cotingo revela que o projeto não pode ser justificado pelos aspectos financeiros, e sugere que a consideração política é a explicação mais convincente para a alta prioridade que a barragem assumiu. E alertam: “há também a possibilidade das autoridades energéticas não expandirem a capacidade termogeradora suficientemente rápido, permitindo que as usinas termelétricas se deteriorem como um meio de montar o apoio popular para a barragem. Em BV, a população tendia a culpar cada queda de energia sobre os índios e/ou restrições ambientais que impediam a construção de Cotingo.”

Os estudos do Cotingo foram interrompidos em 1995 com a decisão de priorizar a importação de energia da Hidrelétrica de Guri, na Venezuela.


CONSIDERAÇÕES

Pelo exposto, podemos concluir que não é a primeira vez que Governo Federal e Estadual tentam realizar o aproveitamento do potencial energético do rio Cotingo, no entanto, as iniciativas esbarraram na inobservância de preceitos legais, normas ambientais e ecológicas, alternativas econômicas e, sobretudo, na resistência dos povos indígenas que habitam a região.

Nas discussões em torno do projeto de exploração dos recursos hídricos do rio Cotingo, não raramente observamos que decisões pautadas em motivos escusos ou falhas insanáveis na definição das estratégias de ação foram determinantes para retardar a efetivação do projeto.

Para ilustrar, convêm registrar as últimas manifestações sobre o tema: para o líder indígena José Adalberto (2007), nesse momento é melhor discutir a implantação de uma hidrelétrica que a exploração mineral em terras indígenas. A hidrelétrica do Cotingo é importante porque além de permitir receita através de royalty, viabiliza a implantação de projetos econômicos. Na própria represa nós poderíamos criar peixes e desenvolver turismo. E, em reportagem se noticiou que (2008), “por razões estratégicas, Anchieta vai defender em Londres a implantação da usina hidrelétrica no rio Cotingo, com capacidade instalada de 600 MW e com baixo impacto ambiental já que a área inundada seria mínima. Esse investimento possibilitaria a Roraima deixar de ser dependente da energia gerada em outro país.”

Reconhecemos a grande dificuldade de dissociação entre política de estado e política eleitoral, no entanto, é um dever permanente do agente público perseguir a imparcialidade na adoção de ações duradouras capazes de maximizar os benefícios sociais e o desenvolvimento regional.



* Administrador. Professor da UFRR. Mestre em Economia (UFRGS). Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

Atualizado em ( 08/02/2010 )
 
 
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