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Felipe Kern Moreira1
Este ensaio apresenta
algumas considerações críticas quanto ao itinerário da Universidade, pelo menos
quanto aos rastros que me são conhecidos. Por ser local de reflexão por
excelência, não é estranho que a crítica à Universidade venha de dentro, muito
embora isto possa ser interpretado como fogo amigo. Não obstante jogar pedras
seja mais fácil e divertido do que ser Geni, aqui, paradoxalmente, sou pedra e
sou Geni.
Parece que a Universidade
deixou de ser o ponto de encontro dos interessados na erudição e na reflexão
crítica. Erudição virou sinônimo de intelectualismo com a cabeça nas nuvens. Reflexão
soa a papo cabeça, a sarau aristocrático, aquilo que os Mutantes cantavam como
‘as pessoas na sala de jantar’.
A questão é que a
Universidade – compreendida aqui como o conjunto da comunidade universitária e das
políticas públicas para o ensino superior – acabou gerando um sistema com
certas inconsistências de funcionamento: o corporativismo, as periferias, os
critérios de pedigree e as estratégias para o futuro. Estas inconsistências
podem ser simplesmente sinais dos tempos, reações da Universidade às mudanças
societárias e este observador, talvez, um humboldiano anacrônico. É, talvez.
O corporativismo é um
exemplo do nosso heroísmo sem caráter. As bancas de avaliação não raras vezes
são compostas por amigos, num sistema descarado de toma-lá-dá-cá.
Inconsistências semelhantes ocorrem com palestras, eventos e livros. Os amigos
criam núcleos virtuosos de anabolização do facebook dos acadêmicos: o sistema
Lattes. E com isto esses núcleos de auto-ajuda reforçam a percepção de sua
maior erudição e de participação ativa na construção da ciência. São as regras
de poder implícitas e explícitas da academia.
Seria interessante
verificar quantos pesquisadores na UFRR são convidados para bancas, palestras e
comissões pelo país afora. Tenho uma intuição de que isto não é algo frequente.
A localização geográfica da UFRR dificulta a colaboração de pesquisadores com outras
instituições. Evitamos reconhecer que estamos na periferia? Isto é mito
familiar, certo tabu. Então não me venha com o papo de políticas de fixação de
pesquisadores na Amazônia. Parafraseando Roberto Campos, ‘não aprecio ficção’.
A avaliação de pesquisadores
com base no sistema de publicações é imprecisa. É claro que alguns
hebdomarários científicos obedecem a padrões considerados pela comunidade
científica como eficientes, divulgadores de boa ciência. Não é disto que estou
falando. As publicações deixaram de ser a linguagem de comunicação dos pesquisadores.
Às vezes, resta-me a impressão de que é mais importante o quanto se publica do
que o que se publica. Paralelamente a isto, impõe-se a inquietante realidade brasileira
que é pródiga em publicações científicas e módica no registros de patentes. Consola-me
que o editor da Harvard Press, Lindsay Waters comunga de tal percepção. O livro
dele com o sugestivo nome de ‘Inimigos da Esperança’ é emancipador. Nos EUA
também, para um acadêmico adquirir prestígio, deve publicar livros, artigos,
ensaios. Waters entende que este critério de pedigree gerou um sistema de ‘mais
do mesmo’ de questionável qualidade ou contribuição para a ciência.
Quem são os grandes
pesquisadores deste país? O que é ser erudito? Estar dentro de uma comunidade,
de um diretório, de um grupo de notáveis é, não raras vezes, uma questão mais
política do que propriamente de bom senso. Não estranharia se nossos critérios
de prestígio na universidade começassem gradualmente a cair em descrédito. Refiro-me
aos critérios de pedigree. Paralelamente, corporações investem em seus núcleos
próprios de pesquisa. Parece que a Universidade começa a acontecer de verdade também
fora de seus muros e isto é uma questão principalmente de gestão das idéias.
A parceria com as
instituições privadas aparece como um ponto de fuga e é um discurso que adquire
cada vez maior oficialidade. Persiste um rasgo de impressão de que se nós não
rumarmos para a colaboração com a iniciativa privada não teremos como manter a
Universidade pública. Não vou desperdiçar meus ‘cata milhos’ para evidenciar o
quão tendenciosa, limitadora e segmentada a pesquisa das Universidades pode se
tornar com o avanço – e, ainda mais, predomínio – do investimento privado na
pesquisa das Universidades públicas.
A iniciativa privada
oferece aporte financeiro e os resultados de pesquisa desta parceria podem vir
a ser benéficos para a sociedade. Por outro lado, a pesquisa pode se tornar
prevalentemente funcional no contexto social e os setores com maior
investimento privado serão privilegiados em detrimento de outras áreas. Posso antecipar
ilhas virtuosas dentro da Universidade, mas isto não significará que a pesquisa
ali é de melhor qualidade e muito menos que esta pesquisa será orientada pelo
interesse e benefício público. E ao investimento privado não interessam
determinados campos e verdades. Quem supre o vácuo, o Leviatã? Alguém aí falou
em cotas para pesquisa?
Algumas transformações sociais
atingem o ensino. Quando estou em sala de aula vejo que os alunos entram e saem
como se fosse uma praça. Talvez isto seja a consequência nefasta da noção
acriticamente reproduzida de que a escola é nosso segundo lar. Já assisti
estudante dormindo encostado na parede. Já vi também estudante que sai no meio
da aula, dá uma banda no corredor, vai ao banheiro, compra uma barra de
chocolate e volta pra sala. Depois vem a sede e ele sai novamente para beber
água. Vi também, juro, estudantes que, em regra, atendem o celular e saem da aula
diversas vezes para falar ao telefone. Nas salas de aula das Universidades é
possível ouvir até ‘soluço de cavalo que é cousa mais custosa nesta vida’.
A vontade governamental de
ampliar o acesso à educação superior ensejou políticas de expansão dos campi, dos
cursos e das vagas. E o espaço para a pesquisa diminuiu em função da demanda com
o ensino. Esta consequência é lamentável já que cientistas – palavra em desuso,
inclusive – deveriam – supostamente - pensar antes de falar. A pesquisa permite
ao professor o aprimoramento da linguagem, a necessária reflexão que precede a
atividade da docência. O esforço inclusivo do governo faz a Universidade pagar
não somente o preço do acúmulo de atividades de gestão e de ensino, mas também o
preço da falta de preparação adequada de parcela dos estudantes egressos do
ensino médio. Estas deficiências poderiam ser sanadas com a contratação de
professores e com a priorização da atividades de pesquisa no país. A propósito,
a pesquisa de alto nível nas Universidades é uma meta típica de nações
prósperas que o Brasil inescusavelmente parece não querer adotar.
Existem muitas outras
coisas a serem ditas. Algumas delas, se ditas, talvez fossem politicamente
incorretas. Aqui tenta-se cumprir a máxima que o que se fala deve ser verdade,
mas nem toda verdade deve ser dita. Se falássemos todo tempo a verdade talvez
não houvesse sociedade conforme a concebemos. Além disso, é difícil ponderar
entre a paciência e o comodismo, entre a tolerância e a omissão. Avalio que é
em parte por causa disto que somos hoje a sociedade do eufemismo, das meias
verdades, do relativismo e da fragilidade de caráter. E, ao mesmo tempo, a
sociedade da informação.
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