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A Universidade e o sinal dos tempos PDF Imprimir
03/02/2010

Felipe Kern Moreira1


Este ensaio apresenta algumas considerações críticas quanto ao itinerário da Universidade, pelo menos quanto aos rastros que me são conhecidos. Por ser local de reflexão por excelência, não é estranho que a crítica à Universidade venha de dentro, muito embora isto possa ser interpretado como fogo amigo. Não obstante jogar pedras seja mais fácil e divertido do que ser Geni, aqui, paradoxalmente, sou pedra e sou Geni.

Parece que a Universidade deixou de ser o ponto de encontro dos interessados na erudição e na reflexão crítica. Erudição virou sinônimo de intelectualismo com a cabeça nas nuvens. Reflexão soa a papo cabeça, a sarau aristocrático, aquilo que os Mutantes cantavam como ‘as pessoas na sala de jantar’.

A questão é que a Universidade – compreendida aqui como o conjunto da comunidade universitária e das políticas públicas para o ensino superior – acabou gerando um sistema com certas inconsistências de funcionamento: o corporativismo, as periferias, os critérios de pedigree e as estratégias para o futuro. Estas inconsistências podem ser simplesmente sinais dos tempos, reações da Universidade às mudanças societárias e este observador, talvez, um humboldiano anacrônico. É, talvez.

O corporativismo é um exemplo do nosso heroísmo sem caráter. As bancas de avaliação não raras vezes são compostas por amigos, num sistema descarado de toma-lá-dá-cá. Inconsistências semelhantes ocorrem com palestras, eventos e livros. Os amigos criam núcleos virtuosos de anabolização do facebook dos acadêmicos: o sistema Lattes. E com isto esses núcleos de auto-ajuda reforçam a percepção de sua maior erudição e de participação ativa na construção da ciência. São as regras de poder implícitas e explícitas da academia.

Seria interessante verificar quantos pesquisadores na UFRR são convidados para bancas, palestras e comissões pelo país afora. Tenho uma intuição de que isto não é algo frequente. A localização geográfica da UFRR dificulta a colaboração de pesquisadores com outras instituições. Evitamos reconhecer que estamos na periferia? Isto é mito familiar, certo tabu. Então não me venha com o papo de políticas de fixação de pesquisadores na Amazônia. Parafraseando Roberto Campos, ‘não aprecio ficção’.

A avaliação de pesquisadores com base no sistema de publicações é imprecisa. É claro que alguns hebdomarários científicos obedecem a padrões considerados pela comunidade científica como eficientes, divulgadores de boa ciência. Não é disto que estou falando. As publicações deixaram de ser a linguagem de comunicação dos pesquisadores. Às vezes, resta-me a impressão de que é mais importante o quanto se publica do que o que se publica. Paralelamente a isto, impõe-se a inquietante realidade brasileira que é pródiga em publicações científicas e módica no registros de patentes. Consola-me que o editor da Harvard Press, Lindsay Waters comunga de tal percepção. O livro dele com o sugestivo nome de ‘Inimigos da Esperança’ é emancipador. Nos EUA também, para um acadêmico adquirir prestígio, deve publicar livros, artigos, ensaios. Waters entende que este critério de pedigree gerou um sistema de ‘mais do mesmo’ de questionável qualidade ou contribuição para a ciência.

Quem são os grandes pesquisadores deste país? O que é ser erudito? Estar dentro de uma comunidade, de um diretório, de um grupo de notáveis é, não raras vezes, uma questão mais política do que propriamente de bom senso. Não estranharia se nossos critérios de prestígio na universidade começassem gradualmente a cair em descrédito. Refiro-me aos critérios de pedigree. Paralelamente, corporações investem em seus núcleos próprios de pesquisa. Parece que a Universidade começa a acontecer de verdade também fora de seus muros e isto é uma questão principalmente de gestão das idéias.

A parceria com as instituições privadas aparece como um ponto de fuga e é um discurso que adquire cada vez maior oficialidade. Persiste um rasgo de impressão de que se nós não rumarmos para a colaboração com a iniciativa privada não teremos como manter a Universidade pública. Não vou desperdiçar meus ‘cata milhos’ para evidenciar o quão tendenciosa, limitadora e segmentada a pesquisa das Universidades pode se tornar com o avanço – e, ainda mais, predomínio – do investimento privado na pesquisa das Universidades públicas.

A iniciativa privada oferece aporte financeiro e os resultados de pesquisa desta parceria podem vir a ser benéficos para a sociedade. Por outro lado, a pesquisa pode se tornar prevalentemente funcional no contexto social e os setores com maior investimento privado serão privilegiados em detrimento de outras áreas. Posso antecipar ilhas virtuosas dentro da Universidade, mas isto não significará que a pesquisa ali é de melhor qualidade e muito menos que esta pesquisa será orientada pelo interesse e benefício público. E ao investimento privado não interessam determinados campos e verdades. Quem supre o vácuo, o Leviatã? Alguém aí falou em cotas para pesquisa?

Algumas transformações sociais atingem o ensino. Quando estou em sala de aula vejo que os alunos entram e saem como se fosse uma praça. Talvez isto seja a consequência nefasta da noção acriticamente reproduzida de que a escola é nosso segundo lar. Já assisti estudante dormindo encostado na parede. Já vi também estudante que sai no meio da aula, dá uma banda no corredor, vai ao banheiro, compra uma barra de chocolate e volta pra sala. Depois vem a sede e ele sai novamente para beber água. Vi também, juro, estudantes que, em regra, atendem o celular e saem da aula diversas vezes para falar ao telefone. Nas salas de aula das Universidades é possível ouvir até ‘soluço de cavalo que é cousa mais custosa nesta vida’.

A vontade governamental de ampliar o acesso à educação superior ensejou políticas de expansão dos campi, dos cursos e das vagas. E o espaço para a pesquisa diminuiu em função da demanda com o ensino. Esta consequência é lamentável já que cientistas – palavra em desuso, inclusive – deveriam – supostamente - pensar antes de falar. A pesquisa permite ao professor o aprimoramento da linguagem, a necessária reflexão que precede a atividade da docência. O esforço inclusivo do governo faz a Universidade pagar não somente o preço do acúmulo de atividades de gestão e de ensino, mas também o preço da falta de preparação adequada de parcela dos estudantes egressos do ensino médio. Estas deficiências poderiam ser sanadas com a contratação de professores e com a priorização da atividades de pesquisa no país. A propósito, a pesquisa de alto nível nas Universidades é uma meta típica de nações prósperas que o Brasil inescusavelmente parece não querer adotar.

Existem muitas outras coisas a serem ditas. Algumas delas, se ditas, talvez fossem politicamente incorretas. Aqui tenta-se cumprir a máxima que o que se fala deve ser verdade, mas nem toda verdade deve ser dita. Se falássemos todo tempo a verdade talvez não houvesse sociedade conforme a concebemos. Além disso, é difícil ponderar entre a paciência e o comodismo, entre a tolerância e a omissão. Avalio que é em parte por causa disto que somos hoje a sociedade do eufemismo, das meias verdades, do relativismo e da fragilidade de caráter. E, ao mesmo tempo, a sociedade da informação.

O que mais impressiona é que não vejo mobilização quanto a estas questões. Marx apostou na mobilização dos trabalhadores. Não anteviu as modificações nas relações de trabalho. Adorno entendia que a revolução não seria dos proletários, mas sim dos acadêmicos. Marx estava equivocado e parece que Adorno também. De qualquer forma, estamos observando transformações na Universidade e é decisivo que nos posicionemos. O problema em si não se refere às rupturas que permitem os avanços científicos e societários, mas sim ao grau de engajamento e responsabilidade das universidades nestes processos. A este respeito, Hannah Arendt intuiu que na educação a responsabilidade pelo mundo assume a forma de autoridade; embora a qualificação de um professor seja indispensável para a autoridade. A qualificação do professor consiste em conhecer o mundo e ser capaz de instruir os outros acerca deste, porém sua autoridade se assenta na responsabilidade que ele assume por este mundo.

1Felipe Kern Moreira é professor do Departamento de Relações Internacionais da UFRR.

Atualizado em ( 05/02/2010 )
 
 
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